Se você me acompanha no Twitter já deve ter percebido que eu tenho cada vez mais me interessado pelo tema Alocação de Ativos. Pretendo iniciar uma série sobre o que estudei até agora e dessa forma disseminar algum do conhecimento que eu obti. Espero que gostem.

Você já deve em algum momento da sua vida ter pensado assim:

“Não posso gastar esse dinheiro com viajando agora porque esse dinheiro é para alguma emergência que pode vir a surgir.”

Se você em algum momento já disse essa frase, de alguma forma você está fazendo alocação de ativos. Isso é tão natural que às vezes nem nos damos conta.

Se não, deveria! 🙂

Porém, por que quando vamos para o mundo dos investimentos muitas vezes falhamos na alocação de ativos?

Eu tenho dois palpites:

  1. Porque vamos atrás do maior retorno, desprezando o risco.
  2. Porque vamos atrás do menor risco, desprezando o retorno.

Alocação de ativos

A maior questão da alocação de ativos é encontrar ativos que não apenas podem se valorizar, mas que se comportem de forma diferente de outros ativos que você tenha no seu portfólio.

Portfólio… palavra interessante, não?

Quando você tem algo em seu portfólio que está desvalorizando, seja por problemas econômicos, políticos ou sociais, não seria interessante ter algo que esteja valorizando pelo exato mesmo motivo? Chamamos isso de descorrelacionar.

Descorrelacionar os ativos que você possui em um portfólio de investimentos é um propósito fundamental da alocação de ativos. A essência da alocação de ativos é descorrelacionar ativos.

Na figura abaixo, procuramos pelo no correlation.

É um time de futebol

Pense em um time de futebol.

Formado por defesa, meio campo e ataque.

Para ganhar um campeonato, você precisa que esse time seja balanceado.

Você quer que o seu time defenda bem quando é pressionado pelo adversário. E quer que o ataque marque gols. Em alguns jogos o ataque dominará o adversário e marcará muitos gols. Em outros jogos você torcerá para o jogo acabar logo e que a sua defesa segure o resultado.

Quem nunca teve um time que o ataque marcava 3 gols mas a defesa tomava 4? Quem nunca teve um time que passava sufoco durante 90 minutos, a defesa se segurava como podia e o ataque marcava um golzinho na única chance que tiveram?

Classes de ativos

Nós precisamos ter uma ideia geral do quê cada classe de ativos (renda fixa, ações, cash, imóveis, etc) pode e não pode fazer por nosso portfólio. Isso é importante para entender como posicionar cada classe no seu portfólio.

Você não quer o Ronaldinho jogando de goleiro e o Taffarel de atacante. Provavelmente também não quer um time só de Taffarel, da mesma forma que não quer 11 Ronaldinhos.

Você quer cada um jogando em sua posição.

Você quer criar um portfólio de investimentos em que quando uma classe de ativos está indo super bem, outra pode ficar esquecida. Se uma parte cresceu muito mais que a outra, talvez seja hora de reorganizar o portfólio, da mesma forma que um técnico de futebol tende a retirar de campo um jogador que deu tudo de si e parece estar exausto.

Portfólio

Você precisa saber o que você quer que o seu portfólio faça por você.

Você quer criar riqueza ou preservar aquilo que já tem? Voltando ao futebol, você está jogando para golear ou nas atuais circunstâncias uma vitória magra ou um empate já está bom? Os jogadores (classe de ativos) que você escala em cada uma das circunstâncias é diferente.

Se você é um pai, mãe, tio, tia, padrinho, madrinha, avô, avó de uma criança e decide começar uma poupança para, digamos, pagar a universidade desta criança, seu porfólio provavelmente pode suportar classes mais arrojadas, visando multiplicação de capital, pois seu horizonte de investimento é longo, aproximadamente 18 a 20 anos.

Como classes mais arrojadas, como ações, tendem a apresentar grande volatilidade no curto prazo, ter um longo horizonte de investimento é determinante para dar tempo ao tempo e deixar as ações crescerem, não importando o seu comportamento no curto prazo. Ao escolher uma classe com mais risco, esperamos também um maior retorno.

Ao mesmo tempo, quando a criança completa 15 anos e você pretende usar o dinheiro que foi sendo guardado nos próximos 3 anos, é interessante readequar o portfólio. Faltando apenas 3 anos, você não quer sofrer uma perda de curto-prazo que pode colocar em risco todo o bom trabalho realizado nos últimos 15 anos. Em outras palavras, o time está ganhando de 2×0 e cansou. Hora de tirar um atacante, recompor o meio-campo e garantir a vitória.

Preparar o portfólio para o ambiente

Ninguém sabe como o mundo será daqui 5 anos. Quem dirá nos próximos 10, 15 ou 18 anos. Mas você precisa se preparar para tal.

Pneus utilizados na Fórmula 1 – um para cada tipo de pista

Se usarmos o exemplo da poupança para a faculdade de uma criança recém-nascida, os pais não sabem se a criança se interessará por uma faculdade. Mas se os pais possuem condição para iniciar uma poupança agora, não seria muito sábio esperar a criança (no caso o adulto) se decidir para então começar a poupar.

Mesmo caso é para o ambiente de investimento. Times de futebol geralmente têm posturas diferentes quando jogam dentro de casa, quando pressionam os adversários, e quando jogam fora de casa, quando são pressionados pelo adversário.

Vamos supor que seu sonho seja proporcionar ao seu filho a possibilidade de estudar no exterior, caso ele queira. Faz sentido 100% do portfólio de investimentos estar em Real? Ou é melhor que uma parte dos investimentos esteja em dólar?

Faz sentido ter tudo em dólar? Provavelmente não. Você se lembra da essência da alocação de ativos que é descorrelacionar? Queremos investimentos que performem de formas diferentes em diferentes condições de mercado.

Ter vários investimentos não é diversificar

Você resolveu montar um portfólio de investimentos para o seu filho.

Você comprou 20 diferentes ações de promissoras empresas brasileiras. Investiu no Tesouro Direto. Aplicou em fundos de investimento brasileiros que bateram sistematicamente o mercado nos últimos 10 anos. Você acredita que possui um portfólio diversificado e que se conseguir continuar aportando nesse portfólio nos próximos 18 anos a faculdade do seu filho está garantida.

Pode até estar, se tudo der certo com o Brasil.

Não diversificação. Você tem várias cestas, com as mesmas coisas dentro.

A carteira fictícia montada não é descorrelacionada. O simples fato de ter vários ativos não diversifica a carteira. Essa carteira está muito concentrada no Brasil. Se o Brasil vai mal, há grandes chances de que essa carteira também vá mal. Se o Brasil for bem, grandes chances que a carteira vá bem. Se o Brasil for mal e seu sonho é mandar seu filho para o exterior, tenho uma péssima notícia para você.

Quando você tem ativos descorrelacionados, seu portfólio é menos volátil, assim como a sua reação aos acontecimentos do mercado. Isso permite que você aproveite melhor as oportunidades.

Se você tem na sua classe de ativos empresas americanas e brasileiras, por exemplo, o mau humor do mercado durante as eleições no Brasil tende a te afetar menos, uma vez que o dólar provavelmente está se valorizando, defendendo o portfólio da desvalorização do Real. A recíproca também é verdadeira.

Diversificação

Rebalanceamento de portfólio

Dependendo do quão bruscos são os movimentos de mercado e o quão descorrelacionados os seus ativos estão, esses movimentos podem permitir ainda uma excelente oportunidade de rebalanceamento de portfólio. Esse rebalanceamento permite que você, sem muito esforço, faça o que todo investidor sonha em fazer: vender na alta e comprar na baixa.

Exemplo:

Vamos supor que você montou a seguinte carteira hipotética para a sua filha:

35% Ações americanas – 35% Ações de empresas brasileiras – 15% Renda Fixa Brasileira – 15% Renda Fixa Americana.

Depois de 6 meses você volta a verificar essa carteira e encontra a seguinte distribuição, alterada por condições do mercado.

50% Ações americanas – 25% Ações de empresas brasileiras – 8% Renda Fixa Brasileira – 17% Renda Fixa Americana.

O que fazer neste caso? Se a alocação definida inicialmente ainda fizer sentido, redistribuir a carteira de forma que ela volte a ter os percentuais iniciais. Você venderá ações americanas na alta e comprará as ações brasileiras na baixa, recompondo também seu caixa em real e vendendo um pouco de dólar. Vender na alta e comprar na baixa.

Você pode rebalancear seu portfólio por 2 gatilhos: tempo e alocação.

Sim, você pode definir que só rebalanceará seu portfólio de 6 em 6 meses. Você checaria o portfólio todo mês de janeiro e julho, por exemplo. Ou qualquer outro intervalo que você definir.

Ou então, estabelecer limites máximos para flutuação de percentual e realocar sempre que os percentuais ultrapassarem esses limites.

Alocação de ativos não elimina risco

Investir envolve risco. Você não consegue eliminar risco, embora, descorrelacionando os ativos o risco tende a diminuir.

A alocação de ativos te força a ter disciplina. Se você respeitar a sua alocação de ativos, você não comprará na euforia, quando determinada classe de ativos está indo extremamente bem. Ao contrário, você irá vender e recompor a sua alocação inicial.

Você também não entrará em pânico quando algo estiver indo extremamente mal. Da mesma forma, você irá recompor a alocação, comprando mais dos ativos que desvalorizaram com o tempo.

Ao ter ativos descorrelacionados, a tendência é que o seu patrimônio seja menos volátil, uma vez que quando alguns ativos estiverem indo bem, outros estarão indo mal e vice-versa.

Aqui terminamos a primeira parte.

Me conte o que você achou nos comentários abaixo e dê também sugestões de temas que você queria que fossem abordados.

7 Comentários

  1. Muito bom. Comecei a pensar em diversificação no ano passado (2020). Anteriormente (por ter pouco capital) tava 100% em ações BR. Agora tô adotando uma alocação menos concentrada e pretendo manter assim, com mais equilíbrio.

  2. Excelente artigo, Peter. Faz muito sentido o comentário sobre disciplina. Definir uma alocação em classes de ativos realmente te força a isso e ajuda a eliminar vieses na hora dos aportes.

    Vai ter uma parte mais voltada para tipos de alocação? Poderia abordar o Yale Model, por exemplo.

    Abraço.

    1. Valeu pelo feedback, Diogo.
      Em português é difícil achar, viu!

      Mas tenta o The Little Book that Saves Your Assets (esse que eu estou baseando essa série) e o Asset Allocation: Balancing Financial Risk .

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