Peter comentou no post anterior sobre o aumento exponencial da participação dos investidores pessoa física na Bolsa de Valores, que passou de 564.024 para mais de 2 milhões, em apenas 4 anos. Porém, Peter questiona se o mercado de capitais brasileiro é realmente convidativo e sabe “cuidar” desse tipo de investidor, citando 3 principais pontos que ele acredita ser as maiores injustiças que o mercado comete contra os novos entrantes:

  • Investidor desqualificado: a CVM impede a pessoa física comum de ter acesso aos melhores investimentos disponíveis no Brasil e no mundo.
  • Impostos: fundos x clubes de investimento x PF – pessoa física paga mais impostos.
  • Gerenciamento de riscos: corretoras atrapalham o investidor que busca um caminho mais seguro.

Nesse post veremos a visão do Peter sobre o conceito de investidor qualificado e porque Peter considera isso um crime contra o pequeno investidor individual.

Primeiramente, Peter quer resumir os pré-requisitos para ser um investidor qualificado de acordo com a CVM, tomando a liberdade de listar abaixo apenas o que se aplica à pessoas físicas:

  • Investidores pessoa física que possuam mais de R$ 1 milhão investidos.
  • Investidores que atestam por escrito (geralmente via formulários online das corretoras) que possuem mais de R$ 1 milhão de reais investidos.
  • Pessoas físicas que possuem os certificados Ancord, CGA, CEA, CFP ou CNPI.

Pronto. A grosso modo, considerando um investidor pessoa física comum, o investidor qualificado é aquele que possui mais de R$ 1 milhão investidos. É aqui que o Peter começa a ficar louco da vida.

Peter chama atenção para o fato de que em momento algum (a não ser para aqueles que estudem para tirar as certificações exigidas) o conhecimento ou experiência do investidor é considerado. Para exemplificar, um investidor pessoa física que opera pequenas quantias na construção do seu patrimônio e ainda não chegou a seu primeiro milhão não é qualificado, enquanto uma pessoa semi-analfabeta que ganhou na loteria automaticamente torna-se investidor qualificado. Faz sentido isso?

Você pode estar se perguntando: Por que diabos isso incomoda tanto o Peter?

Para isso Peter propões fazer uma visita à página da XP, onde a corretora publicou um artigo explicando detalhadamente o que é um investidor qualificado e suas vantagens. Os pontos que o Peter quer sua atenção estão listados abaixo:

O investidor qualificado tem acesso a produtos altamente rentáveis, como fundos de investimento no exterior.

O investidor qualificado tem acessos a produtos financeiros diferenciados e exclusivos para sua categoria.

Operações complexas e de alto risco também oferecem uma rentabilidade mais alta.

Atenção: embora tenha sido extraído do site da XP, Peter em momento algum está criticando a corretora, mas sim a disparidade causada pela própria CVM.

Peter chama sua atenção para o fato de que o investidor qualificado tem acesso a produtos com mais rentabilidade, investimentos no exterior, embora para isso possa ocorrer um maior risco.

Vamos dar alguns exemplos de investimentos que uma pessoa física que não seja qualificada não pode fazer:

  • Investir em fundos de investimento no exterior
  • Investir em fundos que investem no exterior
  • Investir diretamente em BDRs (Recibos de ações de empresas estrangeiras negociadas na bolsa brasileira).

De forma geral, a CVM proíbe o pequeno investidor de investir em empresas como o Google, Amazon, Netflix, Facebook, JP Morgan, Berkshire Hathaway, ExxonMobil por considerar arriscado demais para o pequeno investidor. Que fofo, CVM!

Ah, maior risco, por isso a CVM tenta proteger o pequeno investidor! – Você deve estar pensando…

Não, definitivamente, não!

Peter alerta para o fato de que a CVM, que limita o pequeno investidor de ter acesso às maiores e mais bem geridas empresas do mundo, por considerá-las arriscadas demais, não vê problema algum no investidor pessoa física se entupir de opções sem nem saber como funciona um derivativo. Onde você acha que o investidor tem mais risco de perder 100% do seu capital? Investindo em empresas americanas ou comprando opções?

Com as regras do jogo, a CVM considera ainda que investir em ações americanas é mais arriscado do que se alavancar no day-trade. No site de corretoras é extremamente fácil achar quais são as regras de alavancagem, disponíveis para qualquer investidor. Mas ainda querem te convencer que a figura do investidor qualificado existe para te proteger.

Sendo muito bonzinho com a CVM e fazendo um esforço enorme para acreditar que a comissão quer mesmo proteger o pequeno investidor, Peter se pergunta: Já que o investidor não tem capacidade de investir no exterior (de acordo com a CVM), por que diabos o investidor também não pode fazer isso via fundos de investimento, uma vez que há um gestor profissional do outro lado para fazer isso?

Peter não consegue ter uma resposta para isso. Na verdade, quando Peter pensa sobre isso, sobre o aumento no número de novos investidores e sobre como o mercado, corretoras e órgão reguladores tratam o pequeno investidor, Peter não tem dúvidas: ninguém quer permitir que o investidor pessoa física ganhe dinheiro na bolsa. (Mas que estão ganhando, estão!)

Há uma luz no fim do túnel. A CVM estuda alterar as regras para BDRs, conforme divulgado no Valor Investe. Vamos torcer.

E você? Consegue pensar em alguma justificativa para a existência do investidor qualificado? Consegue ver alguma vantagem nisso? Peter adoraria ler nos comentários abaixo!

Abraço!

13 Comentários

  1. Só uma correção. Mesmo tendo mais de um milhão investido, é obrigatório a assinatura do termo de investidor qualificado. Então, mesmo que uma pessoa sem conhecimento ganhe na loteria, ela deverá assinar aquele termo para ser investidora qualificada e ter acesso aos investimentos para esse público.

    É interessante discutir o conteúdo do “investidor qualificado”, como a questão de BDR abordada por ti, mas a figura desse tipo de investidor serve para proteger o mercado. Lembrando que o mercado é formado tanto por compradores quanto por vendedores. Protege o investidor com pouco conhecimento de ofertas de investimentos mais arriscados ou com menos regulamentações, pois o investimento ajuda a “bater meta” ou paga maior rebate. E protege o agente financeiro, convenhamos o brasileiro é o famoso Homer Simpson, a culpa é dele e ele põe em quem ele quiser. Caso o investimento “dê errado” e o agente seja processado por isso, o investidor não pode alegar que não sabia dos riscos por causa do termo. “Como é que um investidor qualificado não conhecia o investimento?”

    1. Joe, tendo a concordar com você que pode ser uma barreira de entrada em investimentos mais arriscados para pessoas com mais de R$ 1 milhão mas que não fazem ideia de como o mercado funciona. Quando eu digo “tendo” é devido ao fato de que o investidor pessoa física desqualificado (vamos dizer assim) tem acesso fácil a investimentos muito mais arriscados, como opções, termos, etc. E esses são amplamente divulgados pelas corretoras.

      Entramos no seu segundo ponto, de proteger também o mercado. Oras, o risco de um AAI indicar um fundo mais arriscado (apenas um exemplo, nada contra os AAIs) e o investidor ter um prejuízo considerável em um fundo exclusivo para investidores qualificados se difere no que de expor o investidor a ações de empresas praticamente quebradas? É mais arriscado ter a indicação de um profissional para determinado fundo investimento ou sair comprando ação seguindo dica? Isso para não falar de opção a seco.

      Quanto à culpa, concordo com você! Poxa, é difícil demais ganhar dinheiro. O investidor TEM que estudar, TEM que dedicar tempo, TEM que entender no que investe antes de colocar o dinheiro suado em determinado fundo. E por mais que eu discorde de algumas práticas das corretoras, sinto muito… ninguém coloca um revólver na cabeça do investidor e o obriga a comprar determinada ação, opção ou fundo de investimento. A decisão sempre é dele.

      Excelentes pontos levantados! Obrigado!

  2. É uma pena que (creio eu) a coisa não vai melhorar tão cedo. O jeito é estudar muito e buscar ser disciplinado e determinado. E arrancar com garra o que conseguir do mercado, uns morrerão na praia, outros nem na praia chegarão, mas a lei da evolução fará com que muitos vençam e preparem o caminho para gerações mais novas até que ganhem força para mudar o cenário. A escravidão teve fim, não se pode fumar mais em locais fechados/públicos, criança não anda mais no banco da frente, só na cadeirinha… motoqueiro não anda mais sem capacete. Nada disso foi do dia pra noite. A CVM tá numa baita zona de conforto. Brasileiro vai aos poucos mostrar que é capaz e não sei se em anos, ou décadas, mas, a poupança não vai ser mais o que é, brasileiro vai aprender a proteger seu capital e fazer ele crescer.

  3. Peter,

    Quando puder, se aprofunde na segunda das

    “maiores injustiças que o mercado/GOVERNOS cometeM contra os novos entrantes:

    Impostos: fundos x FIA EXCLUSIVO x clubes de investimento x PF:

    pessoa física paga mais impostos.”

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